Se lermos atentamente os quatro Evangelhos, perceberemos que o de João é bastante diferente dos outros, registrando fatos e declarações de Jesus não encontrados nos três primeiros. Enquanto os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas dão ênfase à obra do Senhor, João se preocupa com a pessoa de Jesus, com o que Jesus declarou a respeito de Si mesmo, e como isso pode ser experimentado por aqueles que creem. Por esse motivo, dizemos que o Evangelho de João é um livro de vida. Que significa isso? O Evangelho de João revela que em Cristo, a Palavra de Deus, está a vida (Jo 1:1, 4 NVI); que Cristo veio a fim de que o homem pudesse ter vida (10:10), e que Ele próprio é vida (11:25; 14:6). João, portanto, deteve-se em relatar os fatos que mostram a maneira pela qual Deus veio como vida, na Pessoa de Seu Filho, Jesus, suprir as diferentes necessidades de diferentes tipos de pessoas. Em cada situação, Jesus apresentava-se de maneira específica, normalmente antecedida pela declaração: “Eu sou”. Cada uma dessas declarações é uma jóia, um cristal das insondáveis riquezas espirituais de Cristo (Ef 3:8). O Espírito Santo, por meio de João, deseja levar os homens a experimentar Cristo como vida (Jo 1:4; 5:26, 40; 11:25; 14:6), e para que possamos ter tal experiência, Cristo vem a nós como a luz, a Palavra, o pão da vida, a água da vida, a verdade, o caminho, o Cordeiro, os rios de água viva, o Pastor, o grão de trigo, a videira etc. Cada um desses cristais leva-nos a uma nova experiência viva com Cristo, por meio da qual recebemos mais da Sua vida. De todos os cristais encontrados em João, o mais importante é a declaração: “Eu sou”. Essa expressão revela que a única resposta de Deus para o homem é Seu Filho, Jesus. Quando necessitamos de paz, Cristo não nos dá paz, mas dá-nos a Ele mesmo: “Eu sou a paz” (cf. Mq 5:5). Se precisamos de vida, de ressurreição, de suprimento espiritual, o Eu Sou dar-se-á a nós para suprir-nos. “Cristo sozinho é capaz de satisfazer nosso coração”.

A luz dos homens

Neste livro veremos alguns aspectos de Jesus relacionados à luz. Em João 1:1, lemos: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus” (NVI) e, a seguir, nos versículos 4 e 5 diz-se: “A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”. Portanto, a vida eterna, a vida divina, incriada e indestrutível de Deus, estava em Jesus, que é a Palavra, é Deus feito homem, e essa vida é a luz dos homens. João Batista foi enviado por Deus a fim de testificar a respeito de Cristo como a luz, para que os homens viessem a crer em Cristo. O testemunho de João era de que a verdadeira luz ilumina a todo homem, e ela veio a fim de que os homens se arrependessem e não mais andassem nas trevas (vs. 6-10).

O cordeiro é a luz

João Batista, ao ver Jesus, disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (v. 29). Ao testemunhar com respeito à luz (1:6-8), João Batista se referiu a uma Pessoa, o Cordeiro de Deus. Tendo o pano de fundo do Antigo Testamento, sabemos que essa expressão refere-se aos sacrifícios pelo pecado. Assim, o Cordeiro de Deus, como luz, ilumina-nos a fim de vermos nossos pecados e constrange-nos a nos arrepender. Em Seu infinito amor, Ele mesmo ilumina nossas trevas, Ele mesmo leva-nos ao arrependimento e Ele mesmo é o sacrifício morto em nosso lugar para limpar-nos de pecados. Quão amável Cristo é!

Batismo no Espírito Santo

Após chamar Jesus de o Cordeiro de Deus, João Batista narrou o que aconteceu no batismo Dele. Ele especialmente destacou o fato de o próprio Deus ter testificado, naquela ocasião, de que Jesus era quem haveria de batizar com o Espírito Santo. Qual é a diferença entre o batismo realizado por João Batista e aquele que viria a ser realizado por Jesus? João Batista ajudava os homens a reconhecerem os pecados e a se arrepender; a seguir batizava-os com água, indicando que eles estavam terminados para a velha criação. Isso, no entanto, não dava aos homens a vida divina, a vida eterna que lhes possibilita ter um viver santo e sem pecado. Jesus, porém, não somente resolveu o problema do pecado do homem definitivamente, por meio de Sua morte redentora na cruz, como também batiza com o Espírito Santo, ou seja, entra em todo o que Nele crê como o Espírito que dá vida, trazendo-lhe a vida divina, a vida eterna. Portanto, o batismo em água, por si só, não tem valor, pois é apenas um testemunho exterior. O que realmente importa é a realidade interior, espiritual, de termos sido regenerados, de termos sido feitos nova criação pela fé em Cristo. Depois disso, então, é que somos batizados, como um testemunho diante dos homens, de Deus e de Satanás, de que agora pertencemos a Deus e sepultamos a velha criação.

A luz do mundo e a luz da vida

Em João 8, Jesus menciona dois tipos de luz: a luz do mundo e a luz da vida. A luz do mundo foi aquela que iluminou a consciência dos judeus que acusavam a mulher adúltera: por meio dessa luz, eles reconheceram que tinham pecado, retirando-se em seguida. A mulher, porém, permaneceu. Certamente ela reconheceu seus pecados e deles arrependeu-se, recebendo, por isso, a luz da vida. Podemos dizer que o ministério de João Batista está relacionado à luz do mundo. Sob seu ministério, as pessoas percebiam que estavam em pecado. João, porém, testificou da verdadeira luz que é o próprio Deus em Cristo, a luz da vida que é a luz dos homens (Jo 1:4). Somente Jesus poderia dar vida eterna aos que Nele cressem. A luz do mundo mostra ao homem caído que ele ainda está na velha criação, enquanto a luz da vida leva os homens a terem contato com a vida divina, sendo, por isso, regenerados, tornando-se nova criação. Podemos relacionar essas duas expressões de luz à criação de Deus em Gênesis 1. No primeiro dia Deus disse: “Haja luz; e houve luz. E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus à luz Dia, e às trevas, Noite. Houve tarde e manhã, o primeiro dia” (vs. 3-5). A luz referida nestes versículos é uma luz genérica, difusa, sem uma fonte exata. Ela prefigura a luz do mundo. Nos versículos 14 a 19 lemos: “Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos. E sejam para luzeiros no firmamento dos céus, para alumiar a terra. E assim se fez. Fez Deus os dois grandes luzeiros: o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite; e fez também as estrelas. E os colocou no firmamento dos céus para alumiarem a terra, para governarem o dia e a noite, e fazerem separação entre a luz e as trevas. E viu Deus que isso era bom. Houve tarde e manhã, o quarto dia”. A luz destes versículos prefigura a segunda expressão, que é a luz da vida, pois é uma luz com fonte definida. Apesar de a vida ter surgido no terceiro dia após o aparecimento da porção seca, podemos dizer que ela só passou a desenvolver-se e a multiplicar-se depois do surgimento dos dois grandes luzeiros do quarto dia. O primeiro grande luzeiro, o sol, tem luz própria e representa Cristo, a luz da vida. O segundo grande luzeiro, a lua, que não tem luz própria, antes, sua luz é o reflexo da luz do sol, representa a igreja totalmente gerada e dependente de Cristo. Assim como após o surgimento do sol e da lua houve a propagação da vida, também em Cristo e a igreja há o surgimento, o crescimento e a multiplicação da vida espiritual. A isso chamamos de “luz da vida”. Cristo não veio apenas para resplandecer nas trevas, tornando-se a luz do mundo. Ele veio principalmente para ser a luz da vida para o homem, para ser a luz dos homens. Ele é a verdadeira luz supridora de vida. E, a fim de que essa luz se manifestasse, o próprio Deus se encarnou. Portanto, essa luz dos homens é, em essência, o próprio Deus.

A luz expõe as trevas

Quando o homem recebe a Cristo como a luz da vida, ele se torna filho de Deus (Jo 1:12-13). Por que, então, a maioria das pessoas não O conhece nem O recebe? Lemos em João 1:10-11 que o Verbo “estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. Esses versículos parecem indicar que os homens não O receberam porque não O conheciam. Mas em João 3:19-21 lemos que: “O julgamento é este: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal, aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus”. Portanto, os homens não O recebem, não porque não O conheçam ou não saibam de Sua existência, e, sim, porque O rejeitam deliberadamente, preferindo viver em trevas. A luz manifestou-se por intermédio do Filho de Deus. Quando cremos no Senhor Jesus, recebemos a luz da vida e deixamos de andar nas trevas. Por isso, muitos não querem recebê-Lo, porque sabem que a luz exporá seus pecados, e não estão dispostos a abandoná-los. Uma pessoa salva, porém, deve ter uma atitude totalmente oposta à deles –ela deve achegar-se sempre à luz para que quaisquer trevas em seu interior sejam dissipadas.

Filhos de Deus

Quando recebemos a luz da vida, o maior milagre do universo acontece: tornamo-nos filhos de Deus (Jo 1:12-13)! Os filhos de Deus não nascem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus. É importante ressaltar que o versículo não fala em nascer da vontade de Deus, mas nascer de Deus. Todos os que creram em Jesus são filhos legítimos de Deus, Dele nascidos, tendo recebido Sua vida, a qual está no Filho (1 Jo 5:12), e tendo-se tornado participantes de Sua natureza divina (2 Pe 1:4). Ser filho de Deus é também ser filho da luz (Ef 5:8). Por esse motivo, se mantivermos uma relação adequada com Deus, amaremos estar sob Sua luz, a fim de sermos livrados de qualquer treva e ganharmos mais de Sua vida. Em sua primeira carta, João faz importantes referências à luz no capítulo 1. Ele diz que a luz, que é o próprio Deus, é manifesta, é expressa pelo Senhor Jesus. Deus Pai habita em luz inacessível, e ninguém jamais O viu, mas o Filho unigênito O revelou (Jo 1:18). O Pai está na luz porque Ele é luz, e o Filho manifesta o Pai. Portanto, o Filho também é luz. Por isso, nós devemos estar na luz, por meio da comunhão com o Pai e com o Filho (1 Jo 1:3). Quando estamos na luz, sempre que temos comunhão com alguém que esteja igualmente na luz, há um fluir mútuo da vida divina entre nós. O resultado de recebermos a luz é que nossa alegria é completa (v. 4). Deus é luz, e não há Nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com Ele e andarmos nas trevas, mentimos e não estamos praticando a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como Ele está na luz, somos iluminados quanto aos nossos pecados, confessamo-los imediatamente e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado (vs. 5-7). Recebemos luz de Deus por meio de Seu Filho, e por meio do Filho temos a propiciação e a purificação de pecados. Esse ciclo de vida –comunhão com Deus, luz, reconhecimento de pecados, arrependimento, confissão, perdão –deve ser constante, se desejamos viver de maneira agradável a Deus e se amamos a luz.

O advogado e a comunhão

Quando somos iluminados quanto aos nossos pecados, Jesus Cristo, o Justo, se apresenta como nosso Advogado (2:1-2). A justiça é contrária ao pecado. Assim, para Deus ter aceito a Jesus como nosso Advogado, Este teve de apresentar um requisito básico: não ter pecado. Em Jesus não há injustiça alguma; por isso Ele pôde tornar-se propiciação pelos nossos pecados, sendo castigado em nosso lugar. Desde que o problema dos pecados tenha sido resolvido, podemos, então, ter comunhão com Deus. Essa comunhão face a face com Deus é essencial à vida cristã. Portanto, precisamos achegar-nos constantemente a Deus a fim de receber Sua luz. Ali veremos nossas “manchas”, impurezas e pecados e, por arrependermo-nos e confessar, somos purificados pelo sangue precioso de Jesus. Então, estaremos totalmente na luz e poderemos ter livre comunhão com Deus. Sempre que orarmos devemos pedir que o Senhor nos lave com Seu precioso sangue. No entanto, nem sempre conseguimos enxergar nossos pecados. Precisamos saber que sempre há impurezas em nós, pois vivemos neste mundo cheio de coisas pecaminosas, e sua “sujeira” adere-se a nós. Isso pode levar-nos a ficar em trevas. Portanto, uma vez mais, devemos pedir que o Senhor nos purifique.

Amar uns aos outros

Na luz de Deus também vemos que precisamos amar-nos uns aos outros. Todos nós, cristãos, tornamo-nos filhos de Deus, nascidos Dele, ao crermos em Jesus. Mesmo que sejamos de raças, de níveis culturais e sociais diferentes, fomos todos gerados de Deus pelo Espírito. Mas às vezes deixamos esse princípio espiritual de lado e passamos a ser parciais no Corpo de Cristo. Passamos, por exemplo, a amar somente os que se reúnem na base da unidade estabelecida por Deus no Novo Testamento –uma cidade, uma igreja –, deixando de amar os que ainda não tiveram a visão deste princípio espiritual. Alguém poderá dizer: “Como amar uma pessoa que não pensa como nós?” Entretanto, ainda que essa pessoa se oponha a você e o difame, você deve amá-la. Esse é o novo mandamento dado pelo Senhor –João o chama de antigo, como que querendo dizer que todos os irmãos para quem ele escreve deveriam estar praticando isso (1 Jo 2:7). Devemos amar a todos os filhos de Deus, não as divisões em que estão, pois eles foram gerados de Deus assim como nós. Se somos injustiçados ou perseguidos, isso é problema do Senhor, pois Ele é nosso Advogado. Muitas vezes, as pessoas não fazem isso propositadamente, pois não percebem que estão sendo enganadas por Satanás. Falta-lhes a luz de Deus. Portanto, devemos amar a todos os filhos de Deus, pois assim como nós, eles têm a vida de Deus.

Já brilha a luz!

Então, nos versículos 8 a 10, é dito: “As trevas se vão dissipando e a verdadeira luz já brilha. Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas. Aquele que ama a seu irmão, permanece na luz e nele não há nenhum tropeço”. Por estarmos na verdadeira luz que já brilha, amamos nossos irmãos e temos comunhão com o Pai e com o Filho. Na luz não tropeçamos nem odiamos nossos irmãos. Onde está a prova de que estamos na luz? Está no fato de amarmos nossos irmãos. Sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Se somos filhos de Deus, mas não amamos outros filhos de Deus, permanecemos em um estado de morte espiritual. Em Mateus 5, o Senhor mencionou esse assunto de maneira bastante severa. Ele disse que nos irarmos contra um irmão ou insultá-lo é como matá-lo (vs. 21-22). Se o fizermos, seremos réus do tribunal de Cristo, perdendo, por isso, o direito de participar das bodas do Cordeiro como vencedores.

Dar a vida pelos irmãos

Provavelmente pensemos que é impossível atender a tal elevado padrão de vida cristã. Quem, vez ou outra, não se ira? Quem, ocasionalmente, não guarda algum rancor no coração contra um irmão? Como, então, amar a todos? Aleluia! pois temos a vida de Cristo em nós. Cristo amou Seus discípulos até o fim, e hoje Ele vive em nós e podemos amar a todos por meio Dele. Em 1 João 3:16 lemos: “Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos”. Como daremos nossa vida pelos irmãos? Vivendo pela vida de Cristo, Aquele que morreu por amor a nós. Se o fizermos, andaremos constantemente na luz. Amar os irmãos prova que estamos vivendo na verdadeira luz, Jesus Cristo. Dessa maneira, poderemos ter constante comunhão com o Pai, com o Filho e com os irmãos.

“A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” João 1:4.

Texto retirado do livro: A Luz da Vida, capitulo 1.